Um programa estruturado de exercícios físicos de 16 semanas, com três sessões semanais de 50 minutos combinando atividades aeróbicas e de força, melhorou significativamente as habilidades motoras de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) entre 8 e 10 anos. Os níveis diários de atividade física, porém, não aumentaram no grupo que treinou, enquanto caíram no grupo controle.
Como foi o estudo
O ensaio clínico randomizado foi conduzido em 2019 na Escola de Educação Física e Fisioterapia da Universidade Federal de Pelotas (RS). Do total de 54 crianças convidadas, 49 foram incluídas e distribuídas em grupo exercício (GE; n=29) e grupo controle (GC; n=20). Dez participantes desistiram ao longo da intervenção por motivos alheios ao estudo, e 39 concluíram (GE: n=19; GC: n=20). Para a avaliação, os pesquisadores aplicaram o Test of Gross Motor Development-2 (TGMD-2) e mediram atividade física por acelerometria em três momentos: início (semana 0), após 8 semanas e ao final (16 semanas).
O protocolo do GE manteve uma rotina padronizada por aula: roda inicial (orientações), aquecimento com jogos para interação social, parte principal em circuito aeróbico (ex.: escada de agilidade, cones em zigue-zague, saltos no step) e circuito de força (ex.: agachamentos, flexões, remada em suspensão TRX, arremessos com medicine ball, pranchas), e roda final com alongamentos e respiração. As turmas tinham 4 a 5 crianças e eram conduzidas por quatro professores de Educação Física com experiência na população estudada.
O que foi medido
Habilidades motoras globais (locomoção e controle de objetos) foram aferidas pelo TGMD-2. A atividade física foi medida com acelerômetro ActiGraph GT3X por sete dias em cada ponto de avaliação. Para análise, dias válidos exigiam ao menos 480 minutos de registro; períodos de não uso foram definidos por 60 minutos de zeros consecutivos (tolerância de pico de 2 minutos). A intensidade foi classificada pelos pontos de corte de Evenson (leve, moderada e vigorosa), e a prática semanal foi categorizada como insuficiente (<300 min/semana) ou ativa (≥300 min/semana). A severidade do TEA foi determinada pela Childhood Autism Rating Scale (CARS). As análises estatísticas utilizaram Equações de Estimação Generalizadas com pós-teste de Bonferroni (α=0,05), além do cálculo de tamanho de efeito (Cohen’s d).
Principais resultados
- Desempenho motor: após 16 semanas, o GE superou o GC nos escores de locomoção (p=0,042), controle de objetos (p=0,017) e escore total do TGMD-2 (p=0,023). No GE, houve melhora significativa do início para 8 semanas e de 8 para 16 semanas em todas as dimensões (p<0,001), enquanto o GC não mudou no período.
- Tamanho de efeito: moderado no desfecho motor total na semana 16 (d=0,72; IC95% 0,07 a 1,37) e também para locomoção (d=0,64; IC95% 0,00 a 1,28) e controle de objetos (d=0,76; IC95% 0,11 a 1,41).
- Atividade física semanal: o GC reduziu os níveis entre a semana 0 e a 8 (p=0,003) e entre 8 e 16 semanas (p<0,001), enquanto o GE manteve-se estável. A diferença entre grupos favoreceu o GE na semana 16 (p=0,05). O tamanho de efeito para atividade física foi pequeno na semana 8 (d=0,49; IC95% -0,21 a 1,18) e moderado na semana 16 (d=0,66; IC95% -0,04 a 1,37).
- Intensidade durante as aulas: o tempo em atividade física moderada a vigorosa (AFMV) nas sessões aumentou de 16 minutos na 3ª aula para 21 minutos na 42ª (p=0,016), sugerindo maior engajamento ao longo do programa.
- Recomendação semanal: apenas 20% dos participantes alcançaram a meta de atividade física semanal (cinco do GE e três do GC). Diretrizes internacionais para crianças e adolescentes indicam ao menos 60 minutos diários de atividade física moderada a vigorosa.
Quem participou
A maioria era do sexo masculino, com 10 anos de idade, e diagnóstico de TEA por volta dos 3 anos. Três crianças (7,8%) tinham irmãos com deficiência, e 28,2% apresentavam alguma condição de saúde (bronquite 12,8%; rinite 7,8%; sinusite 5,1%; epilepsia 2,0%). O uso de medicação foi reportado por 82,1% (53,8% em polifarmácia); a risperidona foi o fármaco mais frequente (51,3%).
O que significa na prática
Para crianças com TEA, um programa simples, progressivo e com materiais acessíveis pode melhorar habilidades motoras relevantes para autonomia e participação em brincadeiras e aulas. Esses ganhos, contudo, não se traduziram em aumento da atividade física diária ao longo de 16 semanas, indicando que competências motoras, isoladamente, podem não bastar para mudar o comportamento ativo fora do ambiente supervisionado. Fatores como motivação, inclusão social, oportunidades no ambiente e apoio familiar podem ser determinantes.
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Limitações e ética
Entre as limitações, os autores mencionam amostragem não probabilística, perdas no GE, ausência de cegamento de avaliadores e de registro prospectivo do ensaio. O estudo foi aprovado por comitê de ética (CAAE 70687417.3.0000.5313), com consentimento de pais ou responsáveis; o termo de assentimento não foi exigido devido às características do público.
Conclusão
Um programa combinado de exercícios (aeróbicos e de força) por 16 semanas melhorou habilidades motoras de crianças com TEA e ajudou a manter os níveis de atividade física frente à queda observada no grupo controle. Programas adaptados e periódicos podem favorecer o desenvolvimento motor e a inclusão, mas estratégias adicionais — como engajamento familiar e mais oportunidades no cotidiano — parecem necessárias para elevar o tempo ativo diário.